Conservação · Ecoturismo · Santa Catarina

A Baleia Franca Austral e sua Área de Proteção Ambiental: 25 anos cuidando de um tesouro de Santa Catarina

Como uma espécie quase extinta voltou às praias catarinenses, e por que sua proteção depende tanto do mar quanto da terra.

A Baleia Franca Austral e sua Área de Proteção Ambiental

Madre y filhote en las costas de Praia do Rosa Imbituba, Domingo 21 Junho 2026 SC.

Todo inverno, entre junho e novembro, algo extraordinário acontece no litoral centro-sul de Santa Catarina: as baleias francas austrais (Eubalaena australis) chegam das águas frias da Antártida para parir, criar seus filhotes e descansar nas enseadas tranquilas desta costa. É um dos poucos lugares do Brasil onde é possível observar, direto da praia, uma mãe e seu filhote a poucos metros da arrebentação.

Essa concentração reprodutiva, uma das mais importantes do Atlântico Sul, é a razão pela qual existe a Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, que este ano completa mais de 25 anos protegendo este ecossistema.

Quem é a baleia franca austral

A baleia franca austral é uma das gigantes mais fáceis de reconhecer no mar: não tem nadadeira dorsal e apresenta calosidades esbranquiçadas na cabeça, únicas em cada indivíduo, como uma impressão digital.

A Baleia Franca Austral e sua Área de Proteção Ambiental

Cada baleia tem um padrão de calosidades único, como uma impressão digital.

Alguns dados que dão a dimensão deste animal:

18 mComprimento máximo de uma fêmea adulta
56 tonPeso máximo de uma fêmea adulta
6 mComprimento ao nascer
4-5 tonPeso ao nascer
4-5 anosMaturidade sexual
9 anosIdade da primeira gestação
12 mesesDuração da gestação
1 filhote / 3 anosMédia reprodutiva
~1 anoIdade do desmame
9 filhotesMáximo ao longo da vida
30 anosVida reprodutiva estimada
100-200 anosLongevidade estimada

São números que explicam por que a recuperação desta espécie é um processo lento, e por que cada área de berçário protegida é tão determinante para o seu futuro.

Da caça à proteção: uma história de quase 400 anos

A relação entre os humanos e a baleia franca nesta costa nem sempre foi de admiração. Desde o século XVII existem registros de caça no litoral brasileiro, e em meados daquele século foram instaladas as “Armações” (estações baleeiras) em diversos pontos de Santa Catarina. A baleia franca era o alvo preferido dos baleeiros por sua lentidão e sua espessa camada de gordura, usada para óleo de iluminação e outros fins.

Século XVII – 1973
Caça ativa no litoral brasileiro. Último registro de caça: 1973, em Imbituba — o mesmo local que hoje é o coração da APA.
Final dos anos 70
A espécie é considerada extinta na região após décadas sem avistamentos confirmados.
1981
A FBCN confirma, seguindo relatos de pescadores sobre “baleias pretas” encalhadas, que a espécie ainda está presente na costa catarinense.
1982
Começa o monitoramento sistemático, que continua até hoje através do Projeto Baleia Franca.
1987
O Brasil proíbe oficialmente a caça comercial de cetáceos (Lei Federal nº 7.643).
1989
A baleia franca austral é incluída na Lista Oficial Brasileira das Espécies Ameaçadas de Extinção.
2000
É criada a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca.
1987–2010
A população cresce de forma sustentada (~12% ao ano), embora a espécie continue classificada como “em perigo” no Brasil.

A APA da Baleia Franca: 25 anos de gestão compartilhada

O decreto que criou a APA foi assinado pelo Presidente da República em 14 de setembro de 2000, após quase dois anos de tramitação, pareceres técnicos e consultas a municípios, ministérios e à comunidade científica internacional.

Alguns pontos-chave para entender o que é e como funciona esta unidade de conservação:

  • É uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável: diferente de um parque nacional, dentro da APA é permitida a presença humana e as atividades econômicas tradicionais, desde que ordenadas e compatíveis com a proteção das baleias e de seu habitat.
  • Abrange 9 municípios do litoral centro-sul catarinense, entre a região sul de Florianópolis e Balneário Rincão.
  • Sua gestão é orientada por um Plano de Manejo participativo, construído junto com as comunidades, os governos locais e demais atores do território.

O CONAPABF: mais do que um conselho

O órgão central dessa gestão compartilhada é o CONAPABF (Conselho da APA da Baleia Franca). Mais do que um órgão administrativo, funciona como um verdadeiro processo de educação ambiental: ano após ano, diferentes setores — pesca, turismo, municípios, ciência — se sentam para entender juntos por que esta área precisa de regras especiais.

Não é só mar: uma unidade ecológica completa

Algo que costuma surpreender é que a APA da Baleia Franca não protege apenas o mar. Sua versão final, aprovada após várias rodadas de análise técnica, incorporou também áreas terrestres: lagoas costeiras, zonas estuarinas e áreas úmidas de grande valor ecológico.

Ballena franca con su cría

Por que a terra importa, se o que se busca proteger é uma baleia? Porque a saúde das enseadas onde as mães criam seus filhotes depende de todo o sistema costeiro que as rodeia: a qualidade da água, os manguezais e áreas úmidas que filtram sedimentos, a urbanização da faixa costeira. Proteger apenas a água, sem ordenar o que acontece em terra, teria deixado o objetivo principal — a conservação da espécie — pela metade.

O principal desafio atual: o uso do solo

“O verdadeiro risco para os ecossistemas frágeis da região não vem de quem sempre viveu do mar, mas de quem constrói sobre ele.”

Mais de duas décadas depois de sua criação, o maior conflito dentro da APA não tem a ver com a pesca artesanal nem com o turismo bem conduzido, mas sim com a ocupação e o uso do solo em áreas restritas.

Os moradores originários — em sua maioria famílias de pescadores com raízes históricas na região — geram um impacto ambiental comparativamente baixo: vivem do mar de forma tradicional, com uma pegada urbana modesta. O verdadeiro risco para os ecossistemas frágeis da região vem das grandes construções e empreendimentos imobiliários, que avançam sobre dunas, restingas e áreas úmidas sem a mesma relação de cuidado com o território.

É, em última análise, a mesma tensão enfrentada por muitas costas em processo de crescimento turístico: equilibrar o desenvolvimento com a preservação daquilo que, justamente, torna aquela costa valiosa.

Por que isso importa para quem visita a região

Ballena franca con su cría

Visitar o litoral centro-sul de Santa Catarina durante a temporada das baleias (junho a novembro) não é apenas uma experiência turística memorável: é também testemunhar um dos processos de conservação mais bem-sucedidos do Brasil. Uma espécie que esteve à beira da extinção nesta costa hoje volta todo ano para parir diante das mesmas praias que, há quase 50 anos, a viram desaparecer.

Cada visita responsável, cada operador de turismo de observação que respeita as distâncias e normas, e cada viajante informado fazem parte desta história de recuperação que ainda continua sendo escrita.

Quer viver essa experiência de perto?

Descubra os destinos do litoral catarinense onde você pode observar as baleias francas de forma responsável.

Ver experiências da temporada das baleias

Dejá un comentario